Resenha Remix – A Joia da Alma e a Deusa no Labirinto

Antes de ler, verifique se já cumpriu seu dever divino de corrigir uma profunda injustiça através de sacrifício pessoal.

Banner colorido de divulgação da resenha do livro “A jóia da alma”. No centro da imagem, a tela de um tablet em pé mostra a capa do livro, uma capa ilustrada com o título em branco na parte de cima, e no meio o desenho de um guerreiro de armadura completa, de frente, segurando uma espada na mão direita e um escudo na mão esquerda, em alerta. Atrás dele os detalhes da saída de uma caverna, ele está sendo seguido por uma guerreira com cabelos formados por cobras. À esquerda do tablet, a figura da Morte está ilustrada em preto e branco, de lado encarando a capa do livro, segurando uma foice na mão esquerda e o tablet na mão direita. Do outro lado, o texto “Resenha Remix MP Neves”, com a foto dele logo abaixo, em formato redondo. MP Neves é um homem branco de cabelo preto comprido e óculos. Descrição feita por Lígia Colares.

Hoje o Resenha Remix vai cumprir o propósito que sempre vislumbrei para a coluna: vai explicar que uma duologia, na verdade, não é uma duologia! Mas também vai te recomendar ler os dois livros como se fossem uma. “A Joia da Alma” e “A Deusa no Labirinto” são os dois livros que Karen Soarele escreveu no universo de Tormenta, o maior e mais antigo cenário de RPG nacional. Diferente da trilogia do Leonel Caldela, que já resenhei por aqui, Karen dá um tom mais aventuresco à história e tem mais foco no desenvolvimento emocional dos personagens, mas, cuidado, ela ainda pode fazer você sofrer bastante pelo destino de alguém, como toda boa escritora.

Ambos os livros contêm histórias fechadas, feitas para funcionarem sozinhas. Porém, existem dentro de uma cronologia, com “Joia” se passando antes de “Deusa”. Karen faz isso muito bem, porque dá o protagonismo a personagens diferentes em cada obra, então, embora o elenco se repita, acompanhamos as duas histórias por pontos de vista diversos, e não fica a sensação de que perdemos uma parte importante do desenvolvimento dos personagens se por acaso a leitura se iniciar pela obra mais avançada na cronologia.

Ainda assim, recomendo a leitura a partir de “Joia da Alma”, uma obra mais curta, que pode servir também para “provar” a escrita da autora. A história é centrada em Christian Pryde, um guerreiro que foge de traumas do passado, mas acaba perseguido por ele. O pai de Christian pesquisava um artefato conhecido como Joia da Alma, e os efeitos místicos dessa pedra misteriosa são tão cobiçados que Christian se vê novamente em busca do objeto, nem que apenas para impedir que caia em mãos erradas.

A trama, muito bem construída, foca nessa busca e no conflito interno do protagonista, mas não é apenas isso que o livro traz de interessante. Todo o elenco de personagens secundários é tridimensional e muito carismático, e, na minha opinião, são o que tornam o livro, de uma história divertida de aventura, em uma leitura encantadora. Soarele sabe muito bem como apresentar os tipos variados que surgem na vida de Christian, vindos de seu passado ou recém-chegados no presente.

O grupo heterogêneo, formado por Christian, seu amigo feiticeiro, Ichabod, a druida criança Oihana e seu jaguar Presa Ligeira, depara-se com adversários na forma da medusa Verônica, a elfa clériga Gwen e o goblin engenhoqueiro Dok. Não é um simples grupo de aventureiros de RPG, mas um conjunto de pessoas complexas com identidade própria, que interagem e se desenvolvem de diversas formas ao longo da narrativa, criando uma dinâmica intrincada e divertida de acompanhar.

Essa é só a fatia principal do elenco, e seria suficiente para confundir uma escritora menos hábil, mas Soarele trabalha cada personalidade com maestria, entremeando os personagens em um arranjo rico e intrincado, que foi minha parte favorita da leitura. A trama em si não mexe muito com as bases do cenário de Tormenta, resolvendo-se em si mesma e aproveitando pedaços menos trabalhados do mundo de Arton para construir uma aventura épica o suficiente para entreter, sem precisar mexer nos alicerces do cenário.

Enquanto “Joia da Alma” é despretensioso e bem executado, “A Deusa no Labirinto”, é uma das fantasias mais grandiosas que já li. Verdadeiramente épica. A história gira em torno de Gwen, a elfa clériga da deusa da sabedoria, que aparece como coadjuvante em Joia. Nossa heroína vai até Tiberus, capital do Império de Tauron, para romper o regime escravagista que os minotauros impõem sobre as outras raças. 

Em vez de declarar guerra aberta contra os minotauros, Gwen decide que a melhor forma de romper os grilhões do escravagismo é por dentro, como escrava. Não parece uma boa estratégia, né? Mas, lembre-se que Tormenta é um universo de deuses muito interessados na vida mortal, e que Gwen, como clériga, tem uma linha direta de comunicação com sua divindade. Então aceita a premissa e confia em Tanna-Toh, amém.

Vendida à família Aurelius Lomatubarius, destinada a tornar-se um presente ao imperador Aurakas, Gwen põe em prática um plano audacioso de libertação, com a ajuda de seus companheiros, que confiam em Gwen, mesmo meio relutantes com a ideia de ela tornar-se escravizada.

Os personagens principais desse livro são os mesmos de “A Joia da Alma”, mas a autora caracterizou-os muito bem nesse volume, sem se repetir, de modo que é possível iniciar a leitura por ele, sem perder muito. O que fica de fora é o desenvolvimento interno de Christian e o início de um relacionamento entre Gwen e Ichabod, dois elementos que eu acho que vale a pena conhecer de antemão.

Gwen é uma protagonista cativante, que foge dos moldes de heróis tradicionais. Ela não recua de uma luta, mas não tem na violência a resposta principal aos seus problemas. A relação dela com seus companheiros e as visões conflitantes que eles possuem, pra mim, são o ponto alto do livro. Assim como em “Joia da Alma”, Soarele sabe trabalhar os personagens com cuidado para que estejam sempre em foco na narrativa e para que suas relações pareçam em constante evolução. 

O livro também traz eventos mais grandiosos, com um enredo que impactou o cenário de Tormenta de forma profunda. Lembram que falei sobre deuses influenciando no mundo mortal? Bem, essa interferência não vem livre de repercussões, e nem sempre o resultado é o que os deuses esperavam! A dimensão épica do terceiro ato traz essas consequências divinas, entre outras tragédias de partir o coração. “A Deusa no Labirinto” é um belo exemplo do que a literatura fantástica nacional é capaz, e me deixou ansioso para os próximos trabalhos da autora.

Em conclusão: embora não seja uma duologia propriamente dita, “Joia da Alma” e “Deusa no Labirinto” merecem muito ser lidos em sequência!

Foto de M. P. Neves, um homem branco de cabeo bem comprido e cavanhaque. Ele usa óculos e uma caiseta preta, e olha bem sério para a câmera.

M. P. Neves, autor da trilogia “A Ruína de Noltora” (Amazon), não acredita em finais felizes e bebe um copão de lágrimas de leitories todo dia de manhã. Quando ninguém está olhando, escreve histórias fofas como “Música Roubada” (Amazon). Os finais ainda são trágicos.

Revisão: Denize Gaspar

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