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Faíscas que não se apagaram
Antes de ler, verifique o que acende o fogo da sua imaginação.

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A Faísca foi uma newsletter de flashfiction idealizada pela revista Mafagafo. A Jana e a Fernanda, editoras da revista, criaram o hábito de traduzir flashfiction como “ficção relâmpago”, de onde inclusive surgiu o nome faísca, e eu adorava a desgringolização do idioma quando alguém tuitava “estou escrevendo uma faísca” em vez de “estou escrevendo uma flashfiction”.
A newsletter Faísca operou de 2020 até 2023, dividindo suas publicações em sete temporadas de e-mails semanais. Ou seja, 2024 foi o primeiro ano sem faíscas chegando na minha caixa de entrada do e-mail, e eu confesso que sinto falta delas. Por isso estou aqui, rememorando esse projeto memorável que vocês podem ou não ter conhecido.
Em 3 anos de operação, a Faísca publicou 408 textos: a primeira temporada com 3 histórias por semana; depois, para facilitar a leitura do e-mail, apenas 2 histórias por semana. Por serem tão pequenininhas — pra você ter ideia, em flashfiction, 1000 palavras é um limite bem comum, e isso dá 2 páginas no Word —, várias dessas faíscas se apagaram. Isso não quer dizer que elas não eram boas. É só que foram muitas histórias e já faz muitos anos, elas me deram diversão momentânea no dia, mas não duraram.
Outras, em compensação... às vezes basta uma faísca para criar o incêndio. Então hoje eu trago uma lista de seis faíscas sobre as quais eu penso até hoje.

Colagem digital, acervo da autora
Relacionamento na era pré-Tindr — Maurício Piccini
(Temporada 1, episódio 16+1)
De forma geral, essa lista não tem um ranking, mas essa é definitivamente minha favorita.
Pra começar, em ficção curta eu gosto de experimentação, e essa faísca é escrita como o log de uma conversa entre o usuário e um programa de computador chamado Sistema Integrado de Relacionamentos Adultos. Talvez esse seja meu lado nerd falando, mas eu achei muito charmosa essa interface com cara de DOS.
Mas, mais do que isso, eu adoro como essa história é contada em interstícios. Como o nome sugere, o SIRA é um software criado para ajudar as pessoas a navegar relacionamentos. Não sabemos o que rolou, mas, após um término, o usuário quer voltar para a ex. Não vemos a maioria das respostas do usuário, só as perguntas e reações do SIRA, e o sistema está exasperado — às vezes desesperado — com a burrice do usuário. A história desse término não é uma tragédia de abuso, traição ou amor não correspondido: é uma tragédia de não estar na mesma página, de desatenção, de coisinhas que vão caindo pelas frestas.
Eu amo.

Desenho em lápis de cor e marcador preto, acervo da autora
Paulinho da Moeda — Thiago Loriggio
(temporada 2, episódio 16+1)
Eu penso nesse sempre que conversas sobre esporte ou até fandom começam a ficar exaltadas, porque, se você parar pra pensar, é tudo muito absurdo. Por que a gente lota estádios pra assistir a partidas de futebol ou basquete, mas dificilmente pra assistir a partidas de bocha?
Em “Paulinho da Moeda”, o protagonista Paulinho está casualmente jogando uma moeda pra cima, quando acidentalmente cruza para um universo paralelo onde isso é um esporte olímpico. Ele é descoberto por um caça-talentos, pessoas enchem estádios para ver ele jogando a moeda várias vezes seguidas. É hilário na sua absurdez, eu gostei tanto que fiz um desenho. O final é irônico, mas o que eu gostei mesmo foi o processo.

Ilustração e colagem digital acervo da autora
Recursos (des)humanos — Ton Borges
(Temporada 2, episódio 16+1)
Eu não me lembrava até verificar antes de escrever essa lista que duas das minhas Faíscas favoritas vieram no mesmo e-mail.
Quando o Uber surgiu, ele parecia uma boa ideia. Era pra ser um aplicativo de caronas: em vez de ir sozinho até seu trabalho, você dá carona pra alguém, que vai te pagar uma graninha equivalente ao combustível. Muito lindo, muito ecológico. E hoje em dia a gente criou a expressão “uberização do trabalho” pra falar de terceirização e precarização no setor de serviços. Infelizmente, a essa altura do campeonato, eu sou cínica a ponto de esperar isso de qualquer tecnologia criada por empresas milionárias e startups com mentalidade de coach.
“Recursos (des)humanos” é sobre isso. No universo da faísca, criaturas da noite — monstros — se revelaram ao mundo, e algumas delas comem gente. Vampiros bebem sangue, caboclos d'água chupam os ossos, bruxas usam pele humana para encadernar grimórios. Estruturado como uma entrevista com o criador do aplicativo Recursos Humanos, a narrativa explica como a empresa criou um sistema onde humanos podem vender seus cadáveres para suprir as demandas das criaturas da noite, que, dessa forma, não precisam mais predar ninguém. Muito lindo, muito ecológico. Até você perceber a postura predatória da empresa, porque as criaturas da noite podem esperar pra consumir seu cadáver, mas o capitalismo vai te comer vivo.
Eu escrevi um spin-off dessa faísca chamado “Pede um RH”, sobre o desconforto do único humano do grupo quando as criaturas da noite abrem o aplicativo para pedir um lanche.

Desenho a lápis de cor e marcadores, acervo da autora
Dessa vez eu vou ser o Diabo — Denys Schmitt
(Temporada 2, episódio 2)
Uma história que eu gostaria de ter escrito. Sério, é uma história que eu acho muito a minha cara. Lembro dela sempre que penso em teatro amador e no uso de fanfics bíblicas na cultura pop (alô, Neon Genesis Evangelion), e bate até uma tristeza de não ter tido essa ideia primeiro.
Nessa faísca, o protagonista é um garoto frustrado por sempre pegar papéis “fofinhos” nas peças da escola. Em uma peça com “uma vibe meio Auto da Compadecida”, um dos papéis mais cobiçados é do diabo, o que leva o protagonista a dizer “Dessa vez eu vou ser o diabo”.
A história é narrada de um jeito charmoso, que faz esse pequeno drama infantil soar envolvente e interessante, e o que acontece quando o narrador finalmente tem seu desejo realizado é uma das top 10 ideias da literatura brasileira (a lista é minha, eu uso hipérboles onde eu quiser).

Desenho e colagem digital, acervo da autora
Depoimento reduzido a termo da bruxa Lila sobre o desaparecimento das freiras de Quaraí — Maurício Piccini
(temporada 2, episódio 25)
Mais uma de formato experimental (do mesmo autor, acho que o Maurício Piccini é mestre nisso, hein), essa daqui é um depoimento reduzido a termo, o que significa que é como se alguém tivesse prestado um depoimento, e alguém tivesse resumido as coisas faladas numa lista de tópicos. Essa conseguiu me pegar de surpresa: quando começou, eu achei que era só uma historinha meio irônica sobre a mulher esquisita da vila que todos consideram uma bruxa. Conforme avançava pela lista de tópicos, eu fui apresentada a uma conspiração arrepiante, não por elementos de terror, mas pelo contrário, pela plausibilidade de acontecer numa cidadezinha real.

Ilustração a lápis de cor, acervo da autora
Dá-me teus tubérculos, disse o guaxinim — Rafa Peregrin
(Temporada 1, episódio 18)
Um guaxinim não quer mais roubar comida, então pede a um corvo para ensiná-lo a falar, e chega num fazendeiro pedindo “dá-me teus tubérculos”. O fazendeiro tem a única reação possível: “minha nossa, um guaxinim falante!”, pega o celular e começa a filmar. O guaxinim, que não entende nada de cultura humana, fica se perguntando o que ele fez de errado. É uma historinha muito delicada, narrada com essa aura de fábula, e, ao analisar as outras tentativas do guaxinim de pedir por tubérculos, podemos fazer reflexões legais sobre comunicação, cultura, e a nossa capacidade de compreender e atender às necessidades uns dos outros. A autora era uma das minhas pessoas preferidas do Twitter, mas abandonou a plataforma muito antes do B.O. do E. Musk. Rafa, se isso chegar até você, espero que você esteja bem.
Eu não li as 408 faíscas publicadas na Faísca, acho que pulei 2 temporadas inteiras, mas mesmo assim ainda ficam 304 histórias que eu li. São tantas que eu poderia fazer outro texto falando de cinco ou seis favoritas (será que vem aí?), mas mesmo as que eu não lembro tão bem ficaram comigo de alguma forma. Algumas eu só lembro do nome e uma vibe — a melancolia de “Poussière de Lune” —, e outras eu não lembro nem da vibe, só lembro gostei tanto que guardei o nome da autora e quando ela lançou uma coisa maiorzinha eu fiz questão de ler, e não fui decepcionada (a coisa maiorzinha é “Nada é tão romântico quanto o fim do mundo”, uma comédia romântica de apocalipse zumbi da J. Venegas Alvares).
A moral da história: ficção curta é incrível. Eu deveria ler mais, e, se você quer leituras rápidas e despretensiosas, fica o convite também.
![]() | Ana Carolina Dantas é física nuclear e escreve histórias de fantasia e ficção científica focadas em relacionamentos interpessoais. Ela tem alguns contos na Amazon e publica na sua newsletter uma história de vampiros. Ana gosta de RPG, assiste One Piece enquanto lava louça e aparentemente é editora-chefe da VAL (ela nega as acusações). |
Revisão: Davi Dallariva
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